quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Velhos


Os Velhos
Carlos Drummond de Andrade

Todos nasceram velhos — desconfio.
Em casas mais velhas que a velhice,
em ruas que existiram sempre — sempre
assim como estão hoje
e não deixarão nunca de estar:
soturnas e paradas e indeléveis
mesmo no desmoronar do Juízo Final.

Os mais velhos têm 100, 200 anos
e lá se perde a conta.
Os mais novos dos novos,
não menos de 50 — enorm'idade.
Nenhum olha para mim.

A velhice o proíbe. Quem autorizou
existirem meninos neste largo municipal?
Quem infrigiu a lei da eternidade
que não permite recomeçar a vida?
Ignoram-me. Não sou. Tenho vontade
de ser também um velho desde sempre.

Assim conversarão
comigo sobre coisas
seladas em cofre de subentendidos
a conversa infindável de monossílabos, resmungos,
tosse conclusiva.

Nem me vêem passar. Não me dão confiança.
Confiança! Confiança!
Dádiva impensável
nos semblantes fechados,
nos felpudos redingotes,
nos chapéus autoritários,
nas barbas de milénios.

Sigo, seco e só, atravessando
a floresta de velhos.

A moça...


 

À moça da Janela

Cezar Passarinho

Morena quando te vejo, palanqueada na janela,
fico floreando a barbela, mordendo a perna do freio,
e desenquieto pateio, enredado num olhar,
sou pingo do teu andar, pra carregar teus anseios.

E quando um sorriso esboças, carregado de promessas,
é o proprio céu as avessas com tormentas e lampejos,
e um temporal de desejos vem respingar no meu tozo,
levando um rosto mimoso junto aos meus sonhos andejos.

Noite alta quando cruzo neste rancho onde te abrigas,
da alma vertem cantigas rastreando rimas de prata,
o coração bate pata, corretiando ao Deus dará, e a
janela ali está como a pedir serenata.

Guitarreio o meu silêncio em muda e louca seresta,
na janela em cada fresta, mil ouvidos a escutar
por certo estás a sonhar, a alma leve solta ao vento,
eu queria estar ai dentro, para te ouvir ressonar,
amanhã um outro dia, andarei longe da querencia
reculutando uma ausência que ficou de sentinela,
quero ver os olhos dela quando retornar do povo,
e lá está moça e novo na moldura da janela.

Noite alta quando cruzo neste rancho onde te abrigas,
da alma vertem cantigas rastreando rimas de prata,
o coração bate pata, corretiando ao Deus dará, e a
janela ali está como a pedir serenata.